segunda-feira, 5 de março de 2012

O dia do ser iluminado

Sei lá. Hoje faz parte - atipicamente - de dias de cansaço físico e mental, que sem nenhuma criatividade pra nada, eu resolvo abrir uma página em branco do word e fazer como o Caio Fernando Abreu, em momentos de muita criatividade latente: Vou colocar para fora aquelas sensações doces que antecedem um outro dia muito especial – ainda é dia 05 de março.
Pode ser que eu não consiga transparecer - como em quase todas as coisas dessa vida - mas dia 06 de março é realmente um dia especial (engraçado ele cair justo na semana das mulheres – sou feminista!).

Sabe aquela pessoa que é exatamente sua viga de proteção e que, se não tivesse sido posta nesse mundo nesse dia, você incrivelmente não existiria? Pois é. Em todos os sentidos...Existenciais, biológicos, morais, éticos, divinos, e tantos outros mais.
A vontade que tenho é de acordar todos os dias mais cedo só para dar bom dia à ela e agradecê-la por tantas noites mal dormidas (que ela teve) depois de um dia estressante de trabalho - que é muito mais uma obrigação e recompensa para os outros do que para ela própria. Ou por um sábado perdido pra deixar nosso doce lar mais aconchegante.
Fico imaginando que ser iluminado é este que acorda todos os dias às 7 horas da manhã para simplesmente ficar feliz porque eu estou podendo usar a internet neste momento, ou por poder dar a mim a possibilidade de ser atendida prontamente por um plano médico particular, porque em momentos de muita dor, os remédios naturais não curam.
O engraçado é que ela não compra um pão de queijo só para ela e fica feliz. Ela compra um pão de queijo para ela e um Mc Chicken gigante com batatas fritas e milk shake só para mim, e fica radiante! O que seria isso? Não entendo...E não aceito a forma com que eu trato isso na maioria das vezes. Mas sabe, é só uma falta de jeito, uma timidez que herdei dela.

Somos companheiras de reclusão domiciliar e nos divertimos comendo pipoca ou numa maratona de filmes românticos ou sessões seguidas de novelas depois das 18 horas, num dia de semana. Não sei o que seria da vida sem isso...
Sabe...eu sempre penso: “Vou guardar dinheiro e investir na minha gratidão.” Juro. Mas eu nunca consigo, porque além de não ser perfeita ou um ser iluminado como ela, isso não seria apenas gratidão. É toda uma vida saudável, é toda manhã de sábado acordando com frutas milimétricamente cortadas do mesmo tamanho, ou simplesmente um iogurte de chocolate com uma colher de plástico ao lado: “Bom dia, toma o seu iogurte!”.

O que eu sei é que ela é de peixes com ascendente em touro, na casa 1. Mais nada...
Sei lá. Às vezes acho que vou passar o resto da vida tentando entender. Que ser iluminado é este - que eu tanto critico? Talvez seja meu alter-ego. Aquela pessoa que eu critico tanto, mas que no fundo tem as mesmas opiniões formadas sobre tudo, exatamente como eu! Ironias ou não, ela é um pedaço de mim, e eu sou um pedaço dela. É isso. E quando chegar o dia que eu tiver que realmente me despedir, aí ferrou. Porque sem pulmão ninguém respira, sem coração ninguém bombeia o sangue. É fo**. Ninguém é feliz sozinho, e eu não falo daquela coisa de formar família nova. Eu falo daquela família velha, mesmo. Eu já estou velha, ela também está um pouquinho. E a vida passa rápido, e eu com aquele medo de não conseguir entender quem é esse ser iluminado, ou se eu vou conseguir retribuir com mais, muito mais além da gratidão.

Queria poder pedir desculpas pelas palavras não ditas, ou pelas palavras ditas. Foram sem pensar, foram com medo de pensar. Só queria agradecer e pedir para você esperar só mais um pouquinho, porque eu vou acabar descobrindo tudo isso...
Não é possível que tenha nascido de um ser tão iluminado, alguém incapaz de fazer isso por você...por mim. Por isso, prometo.
Por hora, deixo aqui minha gratidão, nessa página não mais em branco. E peço mais uma vez para você ter só mais um pouco de paciência, porque mesmo se o tempo for curto, um dia vamos nos reencontrar em algum lugar, para eu poder enfim comemorar esse dia 06 de março - retribuindo do jeito que você merece. Você merece o mundo e todas as coisas boas e doces que existem nele, e que eu ainda tenho fé que existam.
Obrigada por ser mãe, por ser mulher, por ser amiga, por ser a pessoa “R” com “r maiúsculo”, que você é!

Um abraço da “ainda não iluminada”,
E.F. - sua filha mais nova.

sábado, 4 de junho de 2011

Coragem, o cão covarde

Confesso que sim. Eu gosto de curtir uma fossa numa sexta-feira à noite.

Ou, melhor ainda: em um sábado à noite, quando todos me chamam para sair e eu prefiro só ela: a minha conformidade em ficar sozinha.

Esses dias eu saí do trabalho e fui correndo atrás dele. Sem saber se ele ainda estava no lugar de sempre. Não estava.

Quando eu crio coragem para fazer aquilo que nunca tive coragem, parece que todas as circunstâncias estão contra mim. Aviso dos astros?

Desanimada, cheguei em casa e havia uma mensagem dele em uma dessas redes sociais: “ tudo bem?”. Meu coração voou pela boca e bateu na tela do computador, e já imaginei toda uma cena de filme com direito a trilha sonora: “ Uh baby, I love your way. Everyday”.

Em seguida, vem em mente aquela teoria furada de que: quanto menos a gente pensa numa coisa mais chances dessa coisa acontecer... O que nunca se sabe é a maneira como essa coisa vai rolar.

Pois é. A vontade da resposta era maior do que eu: “melhor estaria se você me pedisse em casamento”. Mas como eu me sinto pequena diante de qualquer ser - vivente ou não - a resposta acabou sendo menor do que eu, e eu disse: “tudo ótimo, e você?”

E o grande diálogo acabou aí. Ele me deixou no vácuo esperando o pedido de casamento até o dia seguinte, porque faltava 1 minuto para meia noite.

Acho que o problema maior é quando a gente abandona uma caixinha preta cheia de ilusões para comprar uma novinha em folha, cheia delas, mas com cores, cheiros e texturas diferentes. Tento justificar dizendo que a culpa é toda deles: do ex que nunca foi ex, do atual que nunca foi atual. “A culpa é tua, mulher!”. O espelho vive me dizendo isso, e aí sou eu lutando contra minha própria teimosia em acreditar que esperar é o melhor remédio, ou que ser cordial numa rede social é conquistar o mundo do “felizes para sempre”.

Fui dar corda agora para o lado profissional, que vive me dando moral! Chega de raciocinar com o burro do meu coração.

Mais uma vez abandonei aquela minha coragem com as coisas que nunca tive coragem. E no final eu sempre lembro do nome daquele desenho bonitinho que eu costumava assistir quando criança e que não me representava absolutamente nada: “Coragem, o cão covarde”. That´s me!

domingo, 8 de maio de 2011

O que a vida quer da gente

Hoje, no nascer do sol, ele veio me contar sobre um fato da sua vida que até então eu desconhecia. Era quase manhã de um dia de inverno e ele andava descompassadamente sobre um viaduto de uma cidade qualquer - já acordada pelos barulhos de carros e sirenes pedindo urgência. Ele me contava com a voz embargada sobre a tentativa de subir na grade da ponte, em companhia da sua vertigem, enxergando apenas a grande vontade de pular e acabar com aquilo que nem ele mesmo sabia.

Era tanta vontade, era tanto querer em uma coisa que misteriosamente se materializava em mudança ou recomeço.

Ele enfim subiu e olhou para baixo. Mas subitamente sua cabeça foi erguida para o alto e ele passou a enxergar somente um céu amplamente azul, sem sinal de nuvens ou pássaros vazantes. Era um azul intenso que o impedia de olhar novamente para os carros lá embaixo. Ele sabia que estava bêbado e tentava se equilibrar em algum resquício de sanidade - sem emoção. Mas a frieza não fazia parte dele. Ele se sentia firme mas não totalmente indiferente àquela sensação que o impedia de pular.

Me disse também que o ponto crucial foi quando ele lembrou que havia esquecido de me escrever um bilhete de “antes da partida”. Uma despedida que ele só saberia definir em palavras de adeus. Sem me passar o real motivo que nem mesmo ele sabia.

Ele escreveria: “Não queria, mas tive que partir. Sinto te deixar, mas espero que siga bem sozinha, sem mim. Do teu...” Seu nome? Não sabia nem dizer.

Quando ele pensou em mim e no bilhete que esquecera de escrever, ele sentiu um impulso em deixar a grade que separava o chão firme, no qual anteriormente se apoiava, e o ar que pairava sobre as cabeças dos transeuntes que ele mal enxergava - antes, por estar bêbado, e agora pela luz do azul intenso de um outro céu que o cegava. Um céu mais mágico e enigmático.

Ele sentiu voltar em si, entrelaçando seus dedos com uma força descomunal nas grades ásperas do viaduto. Se soltou pulando para trás, mas sem nenhum sinal de que estava regredindo...era simplesmente um recomeço.

Perguntei a ele o por quê de ser um recomeço, já que voltar atrás era ir contra a sua vontade naquele momento. E também não entendia o por quê de sua decisão em pular, abrindo mão do que havia construído para apenas terminar bem mais abaixo do seu céu-azul-intenso.

Depois de tantos questionamentos ele se penalizou com minha curiosidade e enfim sanou todas as minhas dúvidas, me fazendo entender o real motivo pelo qual ele me contava o que tinha acontecido a ele há tantos anos atrás. Me fez ver que ele sempre esteve ao meu lado porém tímido e envergonhado, e que aquela situação toda o fez ser mais efusivo e entregue. Firme sem frieza, sonhador com os pés no chão.

Me disse em uma simples oração [literalmente e religiosamente] quem realmente ele era e que finalmente estava de volta, para ficar ao meu lado nesta e em todas as outras vidas:

- “Eu sou a sua CORAGEM!” - Com ênfase em seu nome.

Meus olhos se encheram de lágrimas e mesmo não podendo abraçá-lo eu entendi quem ele era. Logo em seguida me veio o trecho de Guimarães Rosa em “Grandes Sertões Veredas”, livro que ele mesmo me presenteou em um dia chuvoso cheio de frio e de vazio: “ O que a vida quer da gente é coragem”.

E desde o dia de hoje nunca mais o larguei...


segunda-feira, 18 de abril de 2011

O número 6

Somente 1/8 de lexotan ou rivotril me bastaria. Uma vida inteira arrastada em apenas 6 horas (ou 6 horas e meia) da rotina dos meus dias. Prova disso é quando saio de casa com um rabo torto como penteado, vestindo a primeira blusa estampada de bolinhas brancas feitas pela máquina de lavar e um sapato mais usado que marido traído. Nem me importo.

Aí me aconselham a mentalizar aquilo que quero e não aquilo que não quero: eu quero a pane geral do sistema, a distância daqueles que me amam em falsidade, a aposentadoria ou a surpresa da fé excessiva de poder acertar 6 números na megasena - só 6 números e infinitas 6 horas. Que raio de número 6 é esse? Cabalístico ou não, só entendo que ele anda afetando aquela que também é pobre - a minha saúde [mental e física].

O bom é que já consegui superar, temporariamente, o drama da caixinha preta (sabe aquela que vive querendo se destampar, me trazendo lembranças do que nunca foi?). Ao menos de alguma coisa me serve doar saúde física pra garantir a mental.

Acho que é pedir muito ter um pouco das duas coisas, porque até hoje ninguém sabe me dizer qual o motivo de tudo na vida ser eliminatório. Ou você tem isso, ou você tem aquilo... Mas olha, ninguém vai ter pena de você (nem você mesmo).

Só me resta chegar em casa e afirmar diante do espelho 6 vezes seguidas que eu não nasci pra ser pressionada, não nasci pra ser pressionada, não nasci pra ser pressionada, não nasci pra ser pressionada, não nasci pra ser pressionada, não nasci pra ser pressionada. Tanto é que nem mesmo adepta dos remédios tarja preta eu sou... não vivo sob pressão de bula, nem de gente e nem de mula.

E tudo isso porque eu preciso de uma folga no bolso pra poder dizer que fiz mais do que eu queria: viajei, amei, pintei e bordei.

Mas ainda não tenho coragem de ir contra o mundo e gritar: Porra, não dá mais.

Não dá mais, porra!

domingo, 10 de abril de 2011

Curando traumas emocionais: o caso da pashmina vermelha

Que relacionamentos deixam milhares de traumas, ninguém pode negar. Taí os psicanalistas de plantão e as estatísticas de depressão pós desilusão amorosa pra comprovar. Me nego a fazer a minha lista de traumas por que: 1- não ia dormir hoje, 2- ninguém ia agüentar ler até o final, 3- não sou obrigada.

Mas, e aquele trauma que de tão sutil você nem consegue perceber? Pois bem, hoje eu descobri meu problema existencial com pashminas. Deixe-me explicar. Quando Mr Big e eu terminamos pela 90º vez, fiquei com uma pashmina vermelha de herança. Na verdade, ele esqueceu comigo e eu nunca mais devolvi, mesmo depois de engatar uma pseudo-amizade com ele.

No início deste ano, esta pessoa que vos fala rompeu os laços com Mr Big, até hoje, pra “nunca mais”. Mr Big que jurava ser só meu Best Friend Forever ofendido com meu “ato de violência” e com raiva mortal resolveu fazer a partilha dos bens, e, adivinhem? Pediu de volta a pashmina vermelha!

Nesta altura do campeonato a pashmina já era meu xodó. Já havia me acompanhado em quatro viagens e estado comigo em momentos de extrema alegria e choro intenso. Tinha um cantinho especial na minha bolsa, nos dias de outono fresco ou inverno rígido, e um cabide todo perfumado pra ela. Era minha pashmina de estimação. E, NÃO, não era porque era do Mr Big, mas porque a pashmina era linda! Um charme mesmo, qualquer produção ficava mais encantadora com ela. A pashmina era meu it acessório. Era tipo a echarpe verde da Becky Bloom. Eu amava mais a pashmina do que muitos seres humanos. A pashmina era meu Todynho, minha companheira de aventuras. A pashmina ... enfim, vocês já entenderam...

Bati o pé e disse que NÃO entregaria. Passei duas semanas escondendo a pashmina vermelha no meu quarto com medo que o Mr Big invadisse minha casa em busca dela. Oi, meu nome é neurose. Passei duas semanas também ouvindo nossa amiga em comum, o pombo correio da partilha, me cobrando a pashmina. Até que um dia ela disse: "Olha, era da irmã dele, que faleceu".

Pronto, se eu não devolvesse seria realmente uma psico bitch. Entreguei a pashmina. Desde então comecei a comprar pashminas compulsoriamente. Comprei uma preta, depois uma marfim, uma violeta... e hoje, numa feira internacional, rodei em todas as lojas ditas indianas atrás de uma vermelha. Quando não encontrei em nenhuma, leia-se, NENHUMA DE SEIS, surtei.

“ Não é possível, mãe!! Seis lojas e nenhuma tem!!! NE-NHU-MA!! Isso é perseguição! É praga! Aposto que Mr Big lançou uma praga pra eu nunca mais encontrar uma pashmina vermelha na minha vida. Vou levar todas dessa loja, pra eu nunca mais ficar sem pashmina na vida”.

Sabe, Scarllet O´Hara em “O Vento Levou” gritando que EU NUNCA MAIS PASSAREI FOME NOVAMENTE e agarrando a terra? Bem, essa era eu, em plena feira internacional, segurando quatro pashminas na mão e gritando que EU NUNCA MAIS FICAREI SEM PASHMINA NOVAMENTE.

Só quando percebi a expressão de assustada da minha mãe, soltei as pashminas. Envergonhada, não levei nenhuma. Mas decidi que era hora de me curar desta obsessão e tomei a atitude mais coerente no momento: entrei num site de compras coletivas e comprei uma pashmina vermelha.


(Inara F, a pashmina e Emily F)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Meu querido...

“Não, não me arrependo”. Essa foi minha resposta quando me acuaram com perguntas sobre o passado. - Menti.

Talvez a omissão seja a palavra mais amena pra resumir o meu medo da transparência e da tal mente aberta em aceitar críticas destrutivas e indiretas sobre algum comportamento doentio. Padrões não me apetecem.

Tenho vontade própria quando alguém me cobra alguma reação, algum mínimo reflexo do martelinho do médico ao forçar minha articulação sinovial complexa... Bem complexa numa vibe: “se meus joelhos não doessem mais...”. Não me rendo nem na dor.

Quando escolhi ver a vida acontecer e esperar sentada, comecei a pensar muito sobre essa coisa de arrependimento. Menti mesmo. Me arrependo de tanta coisa... Não só daquele meu assunto eterno sobre a fila que não anda, a figurinha repetida ou a obsessão que vive na caixinha preta e que nunca consigo deixá-la ir embora carregada pelo rio Ganges. Outros tipos, como: aquele ombro amigo que te esqueceu há tantos anos ou aquela pessoa que você ajudou tanto na vida e que esqueceu do seu aniversário, de te chamar pro casamento ou pro batizado do primeiro filho.

Pessoas ainda queridas me perguntam: “Você se afeta? Isso te faz falta?”

Eu sempre respondo “não” com muita segurança feminina da qual eu não tenho.

Mentira, tanta omissão. Omissão e mentira que eu uso e abuso pra não dizer que eu sou muito insegura, que eu sinto muito pela ausência dessas pessoas, que eu sou infinitamente extrema quando me chateio com o esquecimento. Afinal, de que serve a vontade de receber tudo aquilo que você transmite? Sei lá.

Assim como eu odeio usar a positividade em tudo que eu falo, eu odeio ainda mais o pessimismo no mesmo grau.

Mas vem cá, meu querido, qual é a dor e a dificuldade em me agradecer pelo apoio e cumplicidade em tantos anos vivendo a mesma história? Eu não corria atrás mas não deixava de atender seus telefonemas na madrugada, enquanto ainda sonolenta te dava conselhos de vida sem nenhuma experiência mas com muita boa vontade. Boa vontade até além do limite, porque acobertava seus passos errados e mentia por você. Pra livrar sua cara na missa de domingo em que o padre perguntava se “tu pecastes no dia de hoje”.

Fui teu intercepto entre o prazer e a obrigação. Te ajudei em compromissos que não podia faltar, te representei diante de milhares de pessoas, mesmo sendo muito fechada e desconfiada.

Hoje eu nem sei mais qual é o seu nome, seu endereço, seus pais. Como se nunca tivéssemos nos conhecido, como se o tempo tivesse apagado toda e qualquer lembrança daquelas músicas que tocavam quando estávamos no mesmo quarto ou tomando uma banana split no nosso melhor lugar.

Às vezes você aparecia dizendo sentir saudades do passado... E eu sentia de verdade. Daí se evaporou junto com as gotas de orvalho no final de um outono.

Já disse tchau várias vezes, mas agora eu cansei. Me arrependo de não ter sabido usar o “não”, o “nunca mais”, o “acabou” com todas as nossas vivências. Foi isso que eu nunca soube transparecer diante das perguntas sobre meu passado.

Prefiro pensar que seja o começo, daqueles advindos das forças astrais, quando finalmente resolvi falar a mim mesma que meu limite chegou ao fim, que a tua presença já nem fazia mais parte da minha ira por ter sido esquecida e tampouco da minha vida.

Você e os outros também fazem parte da minha obsessão dentro da caixinha preta - que eu teimo tanto em abrir de vez em quando...quando não tenho nada pra fazer, quando não tenho mais vergonha na cara e não penso nos danos que isso sempre me causa.

Mas num próximo questionamento quero ter oportunidade em dizer que: “sim, eu me arrependo”. Sem vergonha de assumir que sou uma mulher insegura diante da minha insistência em andar sempre nos mesmos morros escarpados, sem nenhuma proteção.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Vale a pena ver de novo?

Que relacionamentos acabam todo mundo sabe. Neste exato momento milhares de relacionamentos terminam ao redor do mundo com as mesmas velhas desculpas. As variantes são muitas, mas a constante da falta de disposição de uma ou ambas as partes parece ser universal.

Se a matemática do amor não é exata e a ordem dos fatores altera o produto. A soma de relacionamentos fracassados parece ter sempre o mesmo resultado: seguir e recomeçar outra vez. Talvez não depois de um mês ou até um ano, mas, invariavelmente nos renderemos a seguir. Não que isso seja ruim. Mas por que insistimos?

Passei os últimos três anos da minha vida presa a um relacionamento auto-destrutivo. Ou melhor, passei os últimos três anos da minha vida presa a um relacionamento inexistente, ainda assim auto-destrutivo, que na prática durou sete meses. Finalmente, depois de muito choro, noites mal dormidas, telefonemas desesperados, DR’s infinitas, porres tristes e atos passionais humilhantes, me libertei.

Por que, então, agora que alcancei o nirvana da minha própria vida. Com uma paz e uma tranqüilidade que ouso nomear de felicidade, eu me envolveria de novo?

Cansada de ouvir as amigas me mandando “seguir a vida” (como se a vida estivesse parada caso você esteja só) e todas aquelas coisas que nós, mulheres, insistimos em dizer, tentei. Como terminou? Com uma desculpa esfarrapada no meu celular, às onze da noite: “Desculpa não ter te ligado antes, meu cel acabou a bateria depois do almoço. Queria muito ter te visto. Beijos”.

Eu ri. O cara, de tão irrelevante não consegui pensar num apelido carinhoso pra ele, realmente achou que eu cairia nessa? Aliás, por que os homens mandam sempre as mesmas desculpas idiotas? Eu não tenho mais 15 anos, querido. Acabei de sair de um relacionamento fudido. Conheço décor e salteado cada uma dessas justificativas que nada dizem. Adeus, tô fora.

Não, eu não respondi isso. Simplesmente continuei a ler meu livro. Mas me perguntei. Por que alguém em sã consciência trocaria uma vida calma pela ânsia de esperar telefones que nunca tocam, mensagens que nunca chegam, palavras de carinhos que nunca vêm? Pra que sofrer com as mesmas inseguranças, neuroses e ausências? Vale a pena ver de novo? Porque, por melhor que seja o relacionamento, fatalmente ele acabará com o mesmo conjunto de faltas.

Eu entendo que a ilusão do amor é que nos faz seguir. Nos ensinaram que uma vida completa é uma vida com alguém. Nascemos só, mas não encaramos nossa solidão de frente. Não nos amamos primeiro, amamos o outro, e muito mal. Acordados, nós dormimos. Na ilusão de alcançar o mito do amor romântico.

Podem me chamar de pessimista sentimental, mas depois dos últimos naufrágios só o que for muito muito muito leve e fácil. Na literatura sofrer 100 páginas, pra na última viver feliz pra sempre, pode ser lindo. Mas já dizia Woody Allen, life isn’t on paper e se de cada amor herdamos realmente só o cinismo, é melhor atenção, querida, ou quando olharmos estaremos a beira de um abismo que cavamos com os nossos próprios pés.